Posted by : Francisco Souza
quinta-feira, 1 de março de 2018
SENDO O SAL QUE QUER SALGAR
Agora, o interessante é olhar
e fazer algumas comparações entre esses dois homens no episódio da viagem que
cada um fez. Vejamos o que acontece com Jonas de um lado, e com Paulo de outro.
A viagem de Jonas mostra a
sua postura de sal que não quer salgar. A viagem de Paulo mostra a postura de
quem quer salgar tudo. Há 11 comparações que podem ser estabelecidas entre
esses dois homens, nas suas respectivas viagens. A primeira comparação pode ser
feita com relação à falta de projeto da viagem de Jonas. Chegando em Jope (Jonas
1:3a) , Jonas quer comprar uma passagem. Alguém lhe pergunta:
"Para onde o senhor quer
ir?"
"Para o lugar mais distante
da terra."
Naqueles dias, o lugar mais
distante talvez fosse concebido como "o lugar onde o vento faz a
curva" ou "onde Judas perdeu as botas". Esse lugar era Tarsis (Jonas
1:3b) , o lugar mais distante que se conhecia, localizado ao sul da Espanha.
"É para lá que eu
vou." dizia Jonas.
"O que o senhor vai
fazer lá?" perguntou o bilheteiro.
"Não, ainda não
sei." respondeu-lhe Jonas. "Eu só acho que Deus não visita aquele
lugar. É por isso que eu vou para lá."
Paulo, no entanto, entra no
navio sabendo para onde vai.
"Para onde você vai,
Paulo?"
"Não diga nada para
eles, não. Mas, os 'bobos' aqui estão me levando direto para César.
Aleluia!" poderia ter dito ele.
Quando lhe disseram a
respeito dele:
"Prendam-no!"
Paulo exclamou:
"Oba!"
Paulo tinha uma fixação, uma
obsessão. Ele sabia para onde ia.
"É para lá que eu estou
indo. Vou pregar para César. Esse navio não vai ficar encalhado, porque eu
tenho que chegar lá."
Jonas usa sua liberdade para
fugir. Paulo, entretanto, usa o fato de estar preso para fazer a vontade de
Deus até o fim. Jonas entra no navio e se aliena. Diz-nos a Bíblia que ele foi
para o porão do navio, deitou-se e dormiu profundamente (Jonas 1:5b) . Paulo é
diferente: entra no navio e se integra. Sabe quantas pessoas viajam com ele, a
ponto de precisar o número: 276 pessoas a bordo (Atos 27:37) . Fica amigo do
centurião (Atos 27:3) , faz amizade com o piloto, compreende as forças
políticas que agem no navio, integrando-se inteiramente ao ambiente. Jonas não
ora nunca, nem por ele, nem por ninguém e nem por coisa alguma. Os pagãos
estavam durante a tempestade fazendo vigília; todos jejuando (Jonas 1:5a) , só
Jonas, porém, olhando contemplativamente toda a situação de desespero à sua
volta. Seus companheiros de viagem lhe diziam: "Tu és o único que não oras
aqui, 'evangélico'!"
Já Paulo entra no barco e ora
por todos (Atos 27:35) , tornando-se o intercessor do navio, dizendo-lhes, no
meio da tempestade:
"Mas, já agora vos
aconselho bom ânimo, porque nenhuma vida se perderá de entre vós, mas somente o
navio. Porque esta mesma noite o anjo de Deus, de quem eu sou e a quem sirvo,
esteve comigo, dizendo: Paulo, não temas; é preciso que compareças perante
César, e eis que Deus por sua graça te deu todos quantos navegam contigo.
Portanto, senhores, tende bom ânimo; pois eu confio em Deus, que sucederá do
modo por que me foi dito. Porém é necessário que vamos dar a uma ilha." (Atos
27:22-26)
SENDO O SAL QUE QUER SALGAR
Que coisa maravilhosa era a
vida de Paulo! Que diferença radical! Jonas se considera a causa da tragédia.
Quando lhe perguntaram o que deveriam fazer para que o mar se acalmasse, ele
lhes respondeu:
"(...) Tomai-me, e
lançai-me ao mar, e o mar se aquietará; porque eu sei que por minha causa vos
sobreveio esta grande tempestade." (Jonas 1:12)
O grande inimigo daquele barco não era o
diabo, mas o profeta. Pior do que o diabo é um profeta desobediente.
Eles lhe perguntam:
"O que a gente
faz?!"
Ele não diz:
"Tá amarrado!" Mas diz:
"Amarrem-me e joguem-me
no mar, porque eu é que sou o problema, a urucubaca de vocês."
Paulo, porém, vê o vento, as ondas, a
tempestade e todos os demais sinais da tragédia e da calamidade, mas não diz
que aquilo é por intervenção do diabo, não diz que é por culpa do homem ou do
vento, não responsabiliza o centurião, nem o piloto e nem a si mesmo.
"O vento é o vento, a
onda é a onda, a natureza é a natureza. Entretanto, apesar disso tudo, não
porque eu seja bom, mas em virtude da graça de Deus que me separou para levar o
evangelho, não vai cair nem um fio de cabelo da cabeça de ninguém."
Olhando Jonas, vemos a sua desistência da
vida:
"Podem jogar-me ao mar.
Eu não tenho coragem de me suicidar! Matem-me!"
Paulo é diferente! Lendo Atos 27, nós encontramos
um apóstolo apaixonado pela vida, querendo viver, ansiando por chegar à Roma.
Paulo quer cumprir cabalmente o seu ministério, querendo olhar para trás e
dizer:
"Combati o bom combate,
completei a carreira, guardei a fé." (II Timóteo 4:7)
Paulo é o ser humano mais
vivo daquele barco! É ele quem diz:
"(...) Senhores, vejo que
a viagem vai ser trabalhosa, com dano e muito prejuízo, não só da carga e do
navio, mas também das nossas vidas." (Atos 27:10)
Em outras palavras, Paulo
lhes estava dizendo:
"Não devemos ir, porque,
se formos, vamos 'quebrar a cara'."
O pessoal foi e "quebrou
a cara". Depois Paulo diz:
"Não devíamos ter vindo,
mas já que viemos e 'quebramos a cara', levantemos a cabeça! E tem mais: ânimo,
porque Deus disse que ninguém vai se perder."
Quando a situação vai ficando
insustentável, os marinheiros resolvendo desertar num bote (Atos 27:30-31) ,
ele chama o capitão e diz:
"Se essa mão-de-obra
especializada sair do barco, nem anjo ajuda. O anjo do Senhor me disse que nos
vai ajudar, mas que era para 'segurar' os marinheiros aqui, porque quem entende
de ventos são eles, não é apóstolo."
Paulo é um indivíduo operoso!
Ele vê todos trabalhando há muito tempo, desanimados, sem vontade de comer e
lhes diz:
"Gente! Se nós não
comermos, não teremos forças para remar."
E começa a comer, dando
graças e partindo o pão; e todos comem com ele (Atos 27:34-36) . É vida que
Paulo tem dentro de si; uma vontade enorme de ir adiante que o motiva. Jonas
perde o respeito de todos, chegando o próprio capitão do navio a lhe dizer: "Você
é doido, homem? Como é você diz que crê num Deus que criou o céu, a terra e o
mar, e tenta fugir dele? Nós, pagãos, temos deuses que atuam em áreas
específicas. Quando estamos fugindo de um deus que criou a terra, vamos para o
mar; quando a gente está fugindo do deus das águas, vamos para a terra. Agora,
você diz que crê num Deus que tudo criou, e vem para o meio do mar?! Seria
melhor que você amarrasse uma pedra ao pescoço e se suicidasse!"
Jonas recebe uma "aula
de teologia" do capitão do navio.
SENDO O SAL QUE QUER SALGAR
Jonas perde o respeito de
todos. Paulo, ao contrário, ganha o respeito de todos. Chega ao barco algemado
e acorrentado e, depois de um dia, depois de uma semana, ele se torna o homem
mais livre do barco. No fim, os soldados queriam matar a todos os prisioneiros
para que estes não fugissem nadando (Atos 27:42) ; no entanto, o centurião, por
amor a Paulo, impediu que isso ocorresse, preservando a vida de todos eles (Atos
27:43) . Paulo ganhou o respeito de todos. Jonas é "vomitado" em
Nínive e lá prega com raiva e com rancor, acontecendo o que ele não queria:
todos da cidade se convertem (Jonas 3:10) . Paulo chega em Malta, vai-se
relacionando com as pessoas do lugar, enchendo-se de amor, chamando as pessoas
do lugar pelo nome, entrando na casa delas, comendo com elas, orando por suas
doenças, curando suas enfermidades (Atos 28:7-10) , convivendo com elas três
meses (Atos 28:11a) , depois dos quais a população da ilha inteira fica abalada
com o evangelho de Jesus. Jonas quase "se envenena" de ódio, ao ver a
morte de uma planta (Jonas 4:6-9) . A árvore que lhe dava sombra morre e ele
entra em crise:
"Que será de mim sem a
minha árvore?!"
É a história do amor de
Jonas! E por uma árvore!
Dava até um romance: Capítulo
I: "Como sentia falta dela sem saber quem era ela"; Capítulo II:
"Eis que ela aparece"; Capítulo III: "Me faz sombra"; Capítulo
IV: "Ela morre"; Capítulo V: "Eu morro com ela". Este é o
amor de Jonas! Um "amor profundo", por uma "causa nobre".
Jonas e a árvore.
Ele era o profeta mais
ecologicamente desgraçado do planeta.
Paulo chega na ilha de Malta
e lá é mordido por uma víbora, não dando a mínima importância a isso (Atos
28:3-5) . Jonas vê uma planta morrer é quer morrer junto com ela; Paulo é
picado por uma cobra e diz:
"Sai pra lá!"
Todos ficam admirados:
"E aí, gente! Vamos
cantar 'Você tem valor'."
E todos ficam esperando que
ele caia morto:
"Ele vai cair... O dedo
dele vai inchar... Ele vai ficar roxo... Quando começar a bater palmas, suas
mãos vão começar a se desencontrar... Ele vai cair morto de repente..." E
nada disso acontecia. No entanto, Paulo estava animado, para espanto daqueles
que não o conheciam (Atos 28:6) , de modo que começaram a pensar e a dizer:
"É um deus que está
entre nós!"
Jonas considera os ninivitas
uns bárbaros, não querendo ir pregar-lhes por este motivo. No entanto, veja
como Paulo descreve os habitantes da ilha de Malta:
"Os bárbaros
trataram-nos com singular humanidade". (Atos 28:2a)
A mente excludente de Jonas o
faz olhar o ninivita considerando-o um bárbaro; a mente potencialmente
inclusiva e graciosa de Paulo o faz olhar para os bárbaros e dizer acerca
deles:
"São todos gente."
Jonas ora pela destruição da
cidade, orando para que isso aconteça (Jonas 3:10-4:1-3) . Paulo passa três
meses orando pelos doentes da ilha (Atos 28:9-11) , vendo cada um deles, em
nome de Jesus, ser curado. Mas, por que dois homens que criam no mesmo Deus
agem tão diferentes? Jonas tinha uma teologia política que o afastava do mundo.
Paulo tinha uma teologia da compaixão e da graça que o fazia ver o mundo como a
sua paróquia, como lugar de Deus no qual a Sua glória seria implantada.



